31 de agosto de 2011

O jardim de cimento



Autor: Ian McEwan
Género:
Literatura

Idioma: Português
Editora: Gradiva

Páginas: 160
Preço: € 11
ISBN:  978-9-72-6620624-4
Título original: The cement garden

Avaliação:
****
(bom)


Tomei conhecimento deste livro através de uma lista de leituras recomendadas de Stephen King, no seu Escrever - memórias de um ofício. Já tinha ouvido falar deste autor (tem alguns livros adaptados ao cinema, como Expiação) mas ainda não tinha lido nada dele.

Este livro conta-nos a história de quatro menores deixados à sua mercê. Julie, Jack, Sue e Tom vivem num bairro degradado num subúrbio britânico, onde a única casa habitada é a sua, tendo as restantes sido demolidas ou abandonadas.

Num curto espaço de tempo perdem os pais. A mãe, antes de morrer, diz aos filhos mais velhos, Julie e Jack, que lhes deixará dinheiro suficiente para manter a casa e lhes assegurar o sustento. Receosos de serem separados e enviados para orfanatos, os adolescentes decidem esconder a morte da mãe e fecham o corpo num baú coberto de cimento, assumindo a gestão da família.

Com o passar do tempo, sem pais e sem supervisão adulta, as regras e a disciplina desaparecem. Cada um faz o que quer, muitas vezes indiferente ao conforto e bem-estar dos outros. Sue refugia-se nos livros, Tom age como um bebé caprichoso, Jack afunda-se num drama existencial e Julie tenta crescer demasiado depressa, encetando um namoro com um rapaz alguns anos mais velho. É neste redemoinho de emoções, de desejos calados e angústias abafadas em que o leitor se vê envolvido.

É um livro interessante que se lê em poucos dias. São 160 páginas que folheamos com facilidade, apesar de o conteúdo ser de lenta digestão.

Este livro foi também adaptado ao cinema em 1993, com críticas favoráveis. 

26 de agosto de 2011

Why we suck - a feel good guide to staying fat, loud, lazy and stupid



Autor: Denis Leary
Género:
Humor

Idioma: Inglês
Editora: Plume Books
Páginas: 256
Preço: € 5
ISBN:  978-0452295643

Avaliação:
*** (mediano)

Why we suck - a feel good guide to staying fat, loud, lazy and stupid é um livro que aspira a ser sarcástico, rude e ofensivo. E é-o efectivamente, mas olhando para o autor não é de admirar.

Denis Leary é um comediante e actor que se distingue pelo humor ácido e agressivo. Fez nome através do stand-up mas a fama mundial chegou com a televisão, onde é argumentista e protagonista da série Rescue Me (Socorro em Portugal).

Neste livro, Leary mistura histórias de família com opiniões e filosofias de vida sobre inúmeros assuntos: a educação dos filhos, a fama em Hollywood, a obsessão com a imagem nos dias de hoje, os presidentes americanos recentes, o casamento homossexual, etc.


Há capitulos bastante engraçados e irreverentes q.b., nomeadamente os primeiros (gostei bastante dos capítulos sobre a Oprah, sobre gatos e sobre a auto-medicação), mas à medida que vamos lendo, comecei a ter a sensação que Leary estava a encher chouriços, com algum engonhanço, como menções repetidas a episódios familiares e a pontos de vista.

Politicamente incorrecto e corrosivo, peca por se tornar entediante, talvez porque o que o autor teria para dizer poderia ser condensado em pouco mais de 150 páginas, menos 100 que as que o livro tem.
 
Fica um excerto do livro, disponibilizado pela Amazon e uma recomendação para uma leitura diferente.

21 de agosto de 2011

Um eco distante

Autor: Val McDermid
Género:
Policial / Thriller

Idioma: Português
Editora: Gótica

Colecção:
Nocturnos

Páginas: 456
Preço: € 17
ISBN:  978-9-72-792108-9
Título original: The distant echo

Avaliação:
****
(bom)


Val McDermid é uma das maiores escritoras escocesas do género policial, com diversos prémios no seu palmarés. Um eco distante foi distinguido com os prémios literários Sherlock e Barry e nomeado para o Theakston's Old Peculiar Crime Novel of the Year.

No inverno de 1978, quatro universitários ingleses vão a caminho de casa quando “tropeçam” no cadáver de uma jovem de 19 anos. Em comum têm o facto de serem todos amigos de infância, partilharem uma paixão por David Bowie e Pink Floyd e conhecerem a vítima, Rosie Duff, empregada num bar da zona.

Alex "Gilly" Gilbey, Sigmund "Ziggy" Malkiewicz, Tom "Weird" Mackie e Davey "Mondo" Kerr depressa percebem que, ao invés de serem tratados como testemunhas de um crime, são encarados como os principais suspeitos pela polícia local. Numa localidade pequena, não é preciso muito para que passem a ser olhados de lado, o que piora quando o caso nunca chega a julgamento.

A 1ª metade do livro descreve a forma como os amigos vêem as suas vidas alteradas e como são forçados a emigrar para outra região de Inglaterra ou mesmo para outro país, porque em Kirkcaldy tornaram-se personas non gratas


25 anos depois (2ª metade do livro), a polícia decide reabrir o caso do homicídio de Rosie Duff, na esperança é que as novas técnicas de investigação permitam resolver casos arquivados. Os quatro amigos, todos respeitáveis quarentões, cada um com a sua vida bem sucedida, vêem o seu quotidiano dar uma volta de 180 graus com a recepção de telefonemas ameaçadores e o assassinato de um deles… precisamente no dia que faz um quarto de século que Rosie morreu.

Um eco distante tem uma atmosfera densa e as personagens estão tão bem delineadas que é um prazer ler a 1ª metade do livro, ler a forma como cada um reage ao assassinato e à suspeita, numa escrita muito bem articulada. Nisso, é um policial imensamente bem conseguido.

No entanto, a cerca de 100 páginas do final, vai perdendo algum ritmo e dá para perceber sem dificuldade quem é o assassino, o que é algo frustrante, porque a autora vai como que a coxear até à meta.

O grande mérito de Val McDermid reside na forma como mostra a facilidade com que uma amizade pouco sólida (independentemente de ser uma amizade de infância) se desfaz quando sujeita a pressões e, ao mesmo tempo, se pode fortalecer na adversidade. Mais do que um policial com pitadas de mistério, guia-nos por vários tipos de relacionamentos e a sua resistência à adversidade.

Um bom policial.

18 de agosto de 2011

Adam - Pai há só um!

Autor: Brian Basset
Género:
Banda desenhada / Humor

Idioma: Português
Editora: Gradiva

Páginas:
128
Preço: € 13
ISBN:  978-9-72-662603-9
Título original: Adam - life in the fast-food lane

Avaliação:
****
(bom)


Adam esforça-se por ser um super-pai. É o protagonista das aventuras de uma família moderna, onde os papéis dito tradicionais estão invertidos: Laura, a mãe, é uma atarefada e bem sucedida executiva, e Adam, o pai, é o dono-de-casa, com a lida doméstica e os 3 filhos a seu cargo.

Adam não é nenhum trapalhão e até se orienta bem, tirando a culinária, onde os seus dotes de chef não são reconhecidos pelo restante núcleo (muitas tiras satirizam esse facto e o célebre rolo de carne do pai é um dos traumas que os filhos de Adam vão ter da infância). Não é raro vermos Adam completamente de rastos depois do lufa-lufa habitual, com o bebé a fazer das dele e a sujar à medida que o pai limpa, enquanto o primogénito se arma em chico-esperto e encomenda pizza às escondidas. Quando Laura chega a casa, depois de mais um dia nas trincheiras, muitas vezes minimiza o esforço de Adam e há desaguisados.

O autor, Brian Gasset, também é “doméstico”: trabalha em casa e cuidou dos dois filhos enquanto desenhava cartoons. Não é difícil deduzir que muitas das situações vividas por Adam nos quadradinhos são inspiradas em factos reais: a saída dos pais para irem ao cinema depois de meses sem saírem de casa e depois voltarem a correr ao primeiro telefonema da baby-sitter, a integração de Adam no grupinho das donas de casa que se reúne à tarde na casa da vizinha para comerem guloseimas, e o mundo fascinante das salas de espera dos pediatras, onde se passam dias e dias entre choros, fraldas sujas e humores agastados.

Textos curtos, desenhos expressivos e piadas simples é o que vão encontrar neste volume.
Diversão garantida.

10 de agosto de 2011

O vampiro Lestat

Autor: Anne Rice
Género:
Fantástico

Idioma: Português
Editora: Europa-América
Páginas: 520
Preço: € 34 (os 2)
ISBN:  978-9-72-104002-1/ 978-9-72-104032-8
Tradução: Sophie Vinga
Título original: Vampire Lestat

Avaliação:
****
(bom)


O vampiro Lestat, dividido em 2 volumes, é a continuação de Entrevista com o Vampiro, mas pode ser lido autonomamente, sem se perder nenhum fio à meada.

Com a qualidade habitual da escrita sensorial e sensual de Anne Rice, lemos a autobiografia escrita pelo punho do próprio Lestat, desde os seus tempos de mortal até ao dia em que lhe é concedida a imortalidade. Aqui, está bastante longe do retrato do monstro insensível e cruel que se alimentava gulosamente do sangue humano (como descrito por Louis em Entrevista...).

Lestat chega a confessar-se chocado com as palavras do seu amado companheiro, que o via como uma criatura sem coração. A sua história tem como objectivo repôr a verdade dos factos e dar a conhecer ao mundo a sua existência e a de outros vampiros (Marius, Armand e Gabrielle), com episódios que remontam ao Antigo Egipto e à França pré-revolucionária.

As relações entre personagens são descritas ao pormenor, com muita drama à mistura. Lestat é magnético e a sua narrativa é muito envolvente. Damos por nós rendidos à sua personalidade e franqueza, acreditando piamente em tudo o que relata.

Aconselho a leitura, Lestat é um dos personagens mais apaixonantes da literatura fantástica.

6 de agosto de 2011

Não contes a ninguém

Autor: Harlan Coben
Género:
Policial / Thriller

Idioma: Português
Editora: Editorial Presença

Colecção:
Fio da Navalha

Páginas: 300
Preço: € 12
ISBN:  978-9-72-233049-7
Título original: Tell no one

Avaliação:
****
(bom)


Não contes a ninguém é um livro bem escrito e nas suas 300 páginas, as primeiras 200 são electrizantes.

O Dr. David Beck passou os últimos oito anos da sua vida a tentar recuperar da morte trágica da mulher, Elizabeth, assasinada por um criminoso que se encontra no corredor da morte, à espera da execução.

Workaholic confesso, Beck afoga-se em trabalho para ultrapassar a sensação de vazio que teima em permanecer e as recordações dos anos com a esposa. E embora a família e os amigos lhe assegurem que é tempo de seguir com a sua vida, ele não consegue afastar o sentimento de culpa de ter contribuído para o terrível homicídio.

Entre insónias e tormentas, o protagonista está certo de não voltar a ver a mulher, até ao dia em que recebe um e-mail com uma mensagem que somente Elizabeth poderia ter escrito. Outros contactos se seguem, sempre com a recomendação de que Beck «não conte a ninguém»...

Harlan Coben guia habilmente o leitor num mistério que só se revela mesmo nas últimas páginas. Para quem gosta de thrillers, Não contes a ninguém é uma óptima opção.

Uma nota final para a descrição de todo o sentimento de perda e culpa que assalta o protagonista desde o princípio do livro; o autor tem condão de, em frases curtas e sem grandes lamechices, nos fazer compreender como um desaparecimento trágico não faz desvanecer um grande amor. Aconselho.


4 de agosto de 2011

Aventuras de João sem medo

Autor: José Gomes Ferreira
Género:
Fantasia

Idioma: Português
Editora: Leya

Colecção:
Bis

Páginas: 176
Preço: € 4,95
ISBN:  978-9-89-653006-8

Avaliação:
****
(bom)


Ler as Aventuras de João sem medo é ler uma história passada num mundo encantado e mágico.

João sem medo mora com a mãe em Chora-Que-Logo-Bebes, uma pequena aldeia onde os habitantes, os choraquelogobebenses, passam os dias a chorar de tão infelizes.
Um dia, farto de tudo aquilo e contra a vontade da mãe, João salta o Muro em volta da Floresta Branca e aventura-se na área desconhecida.

«É PROIBIDA A ENTRADA
A QUEM NÃO ANDAR
ESPANTADO DE EXISTIR»


Envolve-se então em várias peripécias ao defrontar-se com as criaturas mágicas que se atravessam no seu caminho (o homem sem cabeça, o joão medroso, o gramofone com asas). Afinal, é um choraquelogobebense diferente, que não anda sempre a chorar pelos cantos.

Apesar do tom ligeiro,
Aventuras de João sem medo tem uma forte crítica social, com analogias e metáforas notáveis (o livro é de 1963). A escrita é ambígua e dirigida a um público adulto, numa sátira à situação nacional sob a ditadura que se vivia em Portugal.

«Era uma vez um rapaz chamado João que vivia em Chora-Que-Logo-Bebes, exígua aldeia aninhada perto do Muro construído em redor da Floresta Branca onde os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam instalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos.»

O autor, José Gomes Ferreira, foi cônsul, crítico de cinema e tradutor. Formado em Direito, lutador antifascista, qualificou-se como um «poeta militante», um «misto de cavaleiro andante, profeta, jogral, vate, bardo, jornalista, comentador à guitarra de grandes e horríveis crimes». Este seu título é bom e recomenda-se.

A beltraneja

Autor: Almudena de Arteaga
Género: Romance Histórico
Idioma: Português
Editora: Guimarães Editores
Páginas: 192
Preço: € 12
ISBN:  978-9-72-665460-5
Título original: La beltraneja

Avaliação:
***
(mediano)


A Beltraneja é um livro magrinho, que se lê num ápice.

A história é contada por uma aia da rainha Joana, D. Mécia, à princesa Joana (mais tarde conhecida entre os espanhóis como A Beltraneja e entre os cortesãos portugueses como a Excelente Senhora).

Este romance histórico relata as intrigas e alianças políticas firmadas com o objectivo de colocar Isabel, a Católica, no trono. A acção passa-se no reinado de Henrique IV, soberano de Castela.

Assistimos à viagem de D. Joana de Portugal e das aias para Castela, onde a primeira desposará D. Henrique, sempre nas bocas do povo pela sua alegada incapacidade em gerar filhos ou consumar um casamento. Infelizmente, os boatos são verdadeiros e D. Joana terá de se submeter a práticas humilhantes para tentar conceber o bendito varão.

Em jeito de crónica, A Beltraneja mostra-nos até onde os gananciosos e intriguistas estão dispostos a ir para fazer valer a sua causa, num jogo de bulas falsificadas, casamentos contraídos e anulados, venenos e boatos degradantes.

Devorei os primeiros capítulos, mas a meio do livro, notei uma quebra de qualidade e ritmo, à medida que a acção se torna muito resumida, como se houvesse pouco a contar (ou a imaginação tivesse expirado). No rescaldo, o livro fica aquém do início promissor.

2 de agosto de 2011

Carrie



Autor: Stephen King
Género:
Terror

Idioma: Português
Editora: Bertrand Editora
Preço: € 15
ISBN:  978-9-72-251763-8
Tradução: Maria Filomena Duarte
Título original: Carrie

Avaliação:
****
(bom)


Carrie foi, em 1974, o romance de estreia de Stephen King, o mestre da literatura de terror.

O seu trabalho mais cru (parafraseando o autor) e considerado um clássico do terror, é alvo de constantes reedições.

A história centra-se em Carrie White, uma adolescente de 16 anos cuja
existência é atormentada pelo fanatismo religioso da mãe, uma mulher instável que transformou uma rapariga com tudo para ser normal numa jovem mulher medrosa e acanhada, sem um pingo de auto-estima. Na escola, Carrie é o bombo da festa e a sua timidez está no centro de todas as partidas.

«Eles irão sempre rir-se de ti!»

Mas Carie tem um dom... o seu poder telecinético. Tem o poder de interagir com o mundo material com a mera força do pensamento, um poder manisfestado esporadicamente em episódios de infância mas que cresce na proporção em que Carrie passa do estádio infantil para o pré-adulto.

E é esta capacidade extraordinária vai permitir à protagonista vingar-se de todas as vezes em que foi enxovalhada, num acumular de situações que a transformam numa bomba prestes a explodir. E a cidade de Chamberlain não mais voltará a ser a mesma...


O livro tem uma forte temática de sangue: sangue como pecado, sangue como sexo, sangue como purificante. É um elemento presente em todas as cenas, que dá ao livro um ambiente peculiar. Há uma aura subtil de terror subjacente a todo o livro, numa previsão da qualidade literária de King.

Como vi o filme (leiam a minha apreciação aqui) antes de ler o livro, não pude deixar de evocar algumas cenas em que Carrie (interpretada por Sissy Spacek) aparecia coberta de sangue e olhar alucinado, qual anjo vingador.

Tanto o livro como o filme são boas experiências, abordando as relações humanas, a adolescência e o bullying de uma forma assombrosa.


Este livro não teria sido publicado se a esposa de King não o tivesse ido buscar ao caixote de lixo, onde o autor o meteu, por achar que não tinha qualidade suficiente. Ela adorou Carrie e convenceu-o a enviar o manuscrito às editoras; o resto é história.
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