29 de abril de 2011

A sombra de Foucault

Autor: Patricia Duncker
Género:
Romance

Idioma: Português
Editora: Gradiva
Páginas: 152
Preço: € 10
ISBN:  978-9-72-662599-5
Título original: Hallucinating Foucault

Avaliação: **** (bom)

De vez em quando aventuro-me pela literatura contemporânea, com resultados menos bons. Há excepções. A sombra de Foucault é um desses exemplos. Romance de estreia de Patricia Duncker, editado em 1996, ganhou o prémio Dillon’s First Fiction.

É um livro que se lê bem, pela linguagem acessível e parágrafos resumidos; tem
um tom poético (e até musical)  envolvente. A narrativa trata das relações pessoais, do "peso"  dos textos literários, da loucura e das questões existenciais.

O texto é, a cada linha, uma homenagem ao movimento estruturalista, cujo principal representante foi o filósofo francês Michel Foucault, que, nos seus escritos, apelava ao desenvolvimento de uma ética individual de resistência ao poder; a sua obra encontra-se dividida em 3 estudos distintos: a loucura no mundo ocidental, as articulações entre o saber e o poder, e o triângulo poder/prisões/sexualidade.

«Quem és tu, ponto de interrogação?, eu questiono-me muito. No teu hábito de gala pareces um magistrado. És o mais feliz dos sinais de pontuação porque pelo menos obténs respostas.»

Por esta altura já estarão a pensar que o livro é uma seca, que só interessará e será perceptível a quem conheça ou admire o trabalho de Foucault, mas isso não acontece.

Esta é uma obra de ficção e a figura do filósofo (e consequentemente os seus estudos) apenas servem de base à acção propriamente dita, na medida em que inspiram as personagens no seu quotidiano e na maneira como encaram a vida e o ser humano.

Em todo o livro, o verdadeiro enfoque é na relação que se desenvolve entre um autor famoso, Paul Michel, e um seu fã estudante (e nosso narrador), que tem por ele e pelas suas ideias uma admiração imensa.

A forma como a autora explora a ligação entre escritor e leitor é muito bem ilustrada e quando o nosso narrador, impelido a visitar o instável Paul Michel, internado num hospício, tem o primeiro contacto com o seu ídolo, assistimos a um desconcertante diálogo, onde se espelham cogitações e amarguras. E a narrativa flui, agradável e sem pretensões intelectuais, com o leitor rendido à inteligência e acutilância de Paul Michel.


«Escrevo com o brilho desempoeirado do soalho dum salão de baile. Escrevo para idiotas.»

É um livro difícil de encontrar nas livrarias, mas garantidamente que o encontram no alfarrabista ou nas bancas de livros usados.

22 de abril de 2011

O bom inverno

Autor: João Tordo
Género: Romance
Idioma: Português
Editora: Dom Quixote
Páginas: 292
Preço: € 14,95
ISBN:  978-9-72-204137-9


Avaliação: **** (bom)

Vou começar de uma forma politicamente incorrecta. Pensei que João Tordo fosse mais um caso de "pai famoso" no nosso cantinho à beira-mar plantado.

Mesmo assim, decidi investir neste livro porque achei a sinopse interessante.

O nosso narrador é um homem que parece ter perdido o gosto pela vida, hipocondríaco e escritor desinspirado. Quando a editora o convida a viajar até à Hungria para participar num encontro de escritores, é o dinheiro que o move, porque
, ultimamente, parece não encontrar interesse em nada.

Esta decisão marca uma viragem. Em Budapeste encontra e convive com um grupo de pessoas que vai mudar tudo. Levado até Itália para conhecer o óscarizado produtor de filmes Don Metzger, vê-se envolvido no assassinato deste, confinado a uma casa com desconhecidos também eles suspeitos do mesmo crime.

Rodeados por um denso arvoredo, são avisados por Bosco (amigo de longa data de Don)  que o assassino deverá avançar e confessar o crime. Depois do choque inicial, percebem que Bosco não está a brincar e que tem intenção de cumprir as ameaças. Começam as dinâmicas de um grupo de pessoas encurraladas por um sociopata que vagueia pela floresta com uma espingarda, pronto a abater aquele que desobedeça. Porém, ninguém é inocente e cedo se descobrem razões e se praticam actos que tornam a sobrevivência mais difícil.

A história é-nos narrada na primeira pessoa, do ponto de vista daquele que menos conhece o espaço envolvente e os companheiros de infortúnio. O livro começa lento mas quando "engata", torna-se viciante e a vontade de ler o desfecho é a confirmação de que estamos perante uma história interessante e bem concebida.

«(...) lá dentro são todos imortais. Uma sala cheia de super-homens e de super-mulheres, perfeitos na sua imperfeição, completamente esquecidos de que são, como todos nós, repasto para cemitérios. Comida para os vermes.»

Gostei d'O bom inverno e recomendo-o. Sem me esquecer que, das várias críticas que tenho lido nos blogs, parece que tive sorte e comecei pelo melhor romance de João Tordo.

16 de abril de 2011

A tenda vermelha

Autor: Anita Diamant
Género: Romance
Idioma: Português
Editora: Difel
Páginas: 368
Preço: € 15
ISBN:  978-9-72-290622-7
Título original: The red tent



Avaliação: **** (bom)

A Tenda Vermelha foi uma surpresa. Com um ritmo fluído e uma história comovente, Anita Diamant construiu um livro aconselhável a todas as mulheres.

É uma epopeia histórico-bíblica, narrada por mulheres e tendo-as como protagonistas. Começamos por ser apresentados ao clã do ganacioso Labão, cujas 4 filhas - a possante Lea, a deslumbrante Raquel, a supersticiosa Zilpah e a tímida Billah - são dadas em casamento a Jacob (mais tarde conhecido como Isra'El).

A partir daqui, partilhamos o quotidiano destas quatro forças da natureza, que incorporam a alma da comunidade nas suas diferenças. Pouco depois de iniciarmos a leitura conhecemos Dina, a nossa narradora principal - nascida biologicamente de Lea e Jacob -, mas tratada como uma filha pelas 4 mulheres, que a acarinham e partilham tudo o que sabem, especialmente quando estão na tenda vermelha, o espaço onde as mulheres recolhem nos dias do mês em que estão menstruadas.

Esta tenda é um local vedado aos homens, onde as mulheres são donas e senhoras, e cedo se percebe que toda a família depende delas, da sua força, da sua astúcia e da sua desenvoltura. Através de Dina, descobrimos a aventura de nascer e crescer mulher, a origem de alguns mistérios antigos, o dom de ser parteira, os triunfos e tragédias relacionados com o seu clã, como relatado no Livro do Génesis (com algumas romanceações), numa leitura que nunca se torna aborrecida ou demasiado religiosa.

«E só aparentemente 'A Tenda Vermelha' é um livro antigo. Na realidade trata-se de um hino à condição da mulher, no que ela tem de mais intimo e mais profundo. E também à sua capacidade, não só através da maternidade, de criar novos mundos e de desafiar velhas tradições.»

11 de abril de 2011

Sempre vivemos no castelo

Autor: Shirley Jackson
Género: Romance / Gótico
Idioma: Português
Editora: Cavalo de Ferro
Páginas: 208
Preço: € 14,40
ISBN:  978-9-89-623119-4
Título original: We have always lived in the castle


Avaliação:
*****(muito bom)

Este foi o último romance de Shirley Jackson, considerado pela crítica «um dos 10 melhores romances da literatura norte-americana» (time magazine).

«Chamo-me Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e vivo com a minha irmã Constance (...). Não gosto de me lavar, nem de cães ou barulho. Gosto da minha irmã Constance, de Ricardo Coração de Leão e do Amanita phalloides, o cogumelo da morte. Todas as outras pessoas da minha família estão mortas.»


Passado nos anos 50, conta-nos a história de duas irmãs, Constance e Mary Catherine (Merricat), que vivem com o seu tio Julian - confinado a uma cadeira de rodas - numa enorme casa nos limites de uma pequena cidade.
Estas 3 pessoas são as  sobreviventes de uma abastada família, os Blackwood, tendo os restantes morrido envenenados após um jantar familiar, há 6 anos atrás. O velho Julian vive obcecado com o evento, e na sua senilidade, está sempre a referi-lo  e a compilar pormenores do mesmo em apontamentos que revê frequentemente. As irmãs, de 18 e 28 anos, vivem para a sua rotina, isoladas do resto do mundo. Constance, a mais velha, foi julgada e absolvida do homicídio dos restantes familiares, mas toda a cidade a julga culpada, aumentando a reclusão dos Blackwood.


É um livro muitíssimo envolvente, bem escrito e arrepiante. Merricat é uma narradora  desdenhosa, parcial e complexa, e passa metade do seu tempo a desejar a morte alheia e outras tantas horas a fazer feitiços e rituais para manter e assegurar o isolamento do núcleo
. A sua felicidade é poder seguir o seu calmo quotidiano junto da irmã mais velha, que adora. Há frases que nos levam a crer que Merricat tem um atraso mental, pois insiste em portar-se como uma criança e faz finca-pé quando contrariada. Porém, determinada e calculista, detentora de uma personalidade dominadora, leva sempre a sua avante.

Até que a chegada inesperada de um primo faz precipitar situações que vão mudar as vidas dos Blackwood. A tensão vai crescendo na 2.ª metade do livro, levando a algumas revelações surpreendentes, que deixam o leitor igualmente arrepiado e atordoado.

Gostava de o ter lido antes porque é um livro muito bom, mas nunca é tarde para o recomendar. Leiam assim que puderem, vale a pena.

4 de abril de 2011

As raparigas que sonhavam ursos

Autor: Margo Lanagan
Género:
Fantástico

Idioma: Português
Editora: Guerra & Paz
Páginas: 408
Preço: € 16,65
ISBN:  978-9-89-817485-7
Título original: Tender morsels

Avaliação:
*** (mediano)


As raparigas que sonhavam ursos tem uma capa e título enganadores, que poderão  remeter para  um imaginário infantil. Isso está longe da realidade, pois o livro ficciona temas bastante adultos (como o incesto e a zoofilia), nada condicentes com o felpudo urso que aparece  a abraçar duas meninas.

A adolescente Liga, abusada pelo pai e depois por um grupo de rapazes, sozinha com duas filhas pequenas (a delicada Branza e a aguerrida Urdda), está desesperada, pensa em morrer. Levada ao limite pelo isolamento e pela violência sofrida, cria um mundo paralelo - o seu céu - onde se refugia.

Nele, vive feliz com as suas meninas
, num mundo que não é real. Apenas Liga e as filhas o são, protegidas da maldade dos homens, vivendo as suas vidas longe da realidade.

A pontuação positiva atribuída deve-se a um terço do livro (as primeiras 120 páginas são o melhor do todo), mas a originalidade e frescura extinguem-se e dão lugar a páginas chatas e que vão perdendo gradualmente o interesse; a autora tem  o condão de misturar temas violentos com descrições cândidas e mimosas mas ao final de algum tempo, a história torna-se aborrecida demais.


Sinceramente, quando cheguei ao final do livro, fiquei desiludida; quando comecei  a leitura estava agradada com a narrativa e as últimas 100 páginas foram feitas mais para cumprir calendário que por gosto; esperei que melhorasse ou acabasse em beleza e isso não aconteceu.


O livro tem pormenores engraçados e as várias vozes narrativas ajudam ao ritmo  mas, no geral, fica abaixo do esperado.

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