25 de dezembro de 2010

As piedosas

Autor: Federico Andahazi
Género:
Gótico

Idioma: Português
Editora: Editorial Presença
Páginas: 142
Preço: € 10
ISBN:  978-9-72-232470-0
Título original: Las piadosas

Avaliação: ***** (muito bom)

As Piedosas passa-se
numa villa nos Alpes suiços, onde o poeta Percy Bysshe Shelley, Mary Shelley, a irmã desta, Claire, Lord Byron e o seu obscuro secretário John Polidori se reúnem numa estranha tertúlia. Estamos em 1816 e o desafio é escrever a obra mais negra e perturbante de sempre.

À primeira mirada aos nomes envolvidos, o concurso afigura-se desigual, mas é o secretário que acaba por vencer, ao apresentar O Vampiro, a primeira obra sobre um ser imortal e sedutor que se alimenta do sangue dos vivos.

Como consegue este homem insonso e desinteressante, um mero lacaio de Byron, que acumula funções de médico e secretário do poeta, escrever uma obra tão rica e escura, conseguindo derrotar o texto apresentado por Mary Shelley, que mais tarde será desenvolvido e resultar na obra-prima que é Frankenstein?

A resposta é: um pacto faustiano. Polidori não vende a alma ao Diabo mas antes fornece algum do seu «elixir vital» a uma obscura forma de vida parente das famosas gémeas cortesãs Legrand, que sobrevive à custa da sua extrema inteligência e férrea determinação em existir.

«Sou, na verdade, e digo isso sem apelar para nenhuma metáfora, um monstro. Nem sequer posso reivindicar minha inclusão na classificação que reúne aqueles abortos da natureza abandonados pelos pais nas portas das igrejas ou dos vestíbulos dos orfanatos. Padeço de uma certa idiotice química, de um desconhecido capricho fisiológico que fez de mim um fenómeno vagamento amorfo. Sou uma espécie de formação residual de minhas irmãs. (...) Mas sou, apenas, a terça parte de um monstro que razão alguma - nem humana, nem divina - poderia ter concebido. Ignoro que obscura inteligência governa a natureza; jamais se deixe enganar pelos enganos bucólicos com que os poetas medíocres tentam imbaí-lo. A beleza não é mais do que a aparência do horror e, invariavelmente, necessita da morte: a mais linda flor mergulha suas raízes na fétida matéria decomposta.»

As Piedosas é uma obra inteligentíssima, que nos surpreende até à última página, possuidora de uma crueza que não nos deixa pousar o livro. O autor combina com mestria elementos vários, onde se destacam o horror, a sexualidade, o fantástico e o simbólico, num ambiente soturno e, não raras vezes, assustador, despertando no leitor simultâneos sentimentos de repulsa e fascínio.

O humor negro e a atmosfera vincadamente gótica tornam este pequeno livro uma delícia irresistível, onde Andahazi brilha pela forma como agarra a atenção do leitor, culminando numa história rica em imaginação e final inesquecível.

Obrigatório.

12 de dezembro de 2010

Jóia perdida

Autor: Anne Bishop
Género:
Fantasia

Idioma: Português
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 320
Preço: € 19,13
ISBN:  978-9-89-637058-9
Título original:
Tangled webs

Avaliação:  ** (fraco)

Anne Bishop proporcionou-me boas horas de entretenimento com a sua trilogia d'As Jóias Negras, onde se mostrou uma autora envolvente, capaz de criar um mundo credível e sedutor, onde os Sangue dominam através da magia.
 

Comprei este livro convencida de que seria uma boa leitura onde me reencontraria com personagens como Daemon, Saetan e Surreal, numa qualquer aventura onde o bem venceria o mal. Esta última parte efectivamente aconteceu, mas a aventura não foi divertida nem emocionante mas antes sem brilho, monótona.

Na Jóia Perdida, Jaenelle Angeline, rainha dos Sangue, decide criar uma casa assombrada para que as crianças humanas (e sem poderes mágicos) possam perceber como vivem os Sangue, desmistificando algumas ideias falsas de crueldade e promiscuidade.

Paralelamente, um escritor de sucesso que escreve sobre os Sangue descobre ser, ele próprio, meio-Sangue. Radiante com a descoberta, rapidamente se revolta quando não é aceite da melhor forma por alguns daqueles, que ridicularizam os seus livros e o consideram um transviado.


Furioso, arquitecta um plano: constrói uma casa assombrada, ludibria alguns Sangue a ajudá-lo na concepção de armadilhas letais e, fazendo-se passar por Jaenelle, convida alguns ilustres (Surreal, Daemon, Lucivar) para a inauguração.

 O que se passa a partir daqui e nas 200 e muitas páginas seguintes é agonizante. A história avança muito devagar, com muitas repetições e às personagens que aprendemos a gostar falta-lhes complexidade e credibilidade, não parecem as mesmas dos restantes livros. Ora, isto é o pior: com uma história fraquinha e lenta no desenrolar, a autora podia ter apoiado o livro nos carismáticos e familiares protagonistas habituais, mas ao reduzi-los a uma forma tão superficial arruina a experiência ao leitor.

Não posso aconselhar a leitura deste livro nem a sua compra; leiam a trilogia das Jóias Negras, essa sim uma leitura de qualidade superior que faz jus à imaginação desta escritora.

3 de dezembro de 2010

A caixa em forma de coração

Autor: Joe Hill
Género:
Terror

Idioma: Português
Editora: Civilização
Páginas: 324
Preço: € 16,66
ISBN:  978-9-72-262555-5
Título original:
Heart-shaped box

Avaliação:  **** (bom)

A caixa em forma de coração é o primeiro livro que leio de Joe Hill.

Agradou-me a sinopse da história, que é interessante, e o facto do autor ser filho de Stephen King ajudou na decisão de compra. Criaram-se, assim, algumas expectativas.


Foi com satisfação que comecei a ler a história da ex-estrela de rock Judas "Jude" Coyne, um coleccionador do macabro, que compra num leilão da internet o fato assombrado de um homem morto.

Joe Hill não demora a entrar na acção e os primeiros capítulos do livro são muito bons, mas os dois terços que se lhes seguem têm muito menos fôlego e inspiração.

O livro tem um ponto forte inegável: o seu protagonista. Cinquentão e excêntrico, Jude vive isolado com os seus dois amados cães e uma namorada gótica 30 anos mais nova; a sua ligação com o mundo exterior é feita através do seu assistente pessoal, um aspecto que privilegia; Jude não faz grande fé na natureza humana. Pelas suas características, torna-se mais interessante assistir à sua mudança à medida que o fantasma que assombra o fato do homem morto começa a fazer as suas aparições e a manifestar as suas intenções.

Estas primeiras cenas são as melhor conseguidas do livro, verdadeiramente atmosféricas e assustadoras, e
A caixa em forma de coração vale muito por isso. Daí para a frente há uma quebra no ritmo e na atmosfera, sendo que o autor não consegue compensar-nos até ao final, que acaba por não exceder as expectativas nem primar pela originalidade, o que acaba por ser surpreendente, pois esperava um final tão bom como a introdução da narrativa, o que não aconteceu e influenciou a minha ideia global do livro.

Apesar disso, prefiro a forma com Joe Hill escreve em comparação com Stephen King; Hill cria uma dinâmica mais fluída e agradável de ler, mas em ideias e imaginação King ganha-lhe aos pontos.


Lê-se, mas está longe de ser extraordinário.

26 de novembro de 2010

Outros mundos

Autor:  Barbara Michaels
Género: Fantástico
Idioma: Português
Editora: Planeta Editora
Páginas: 270
Preço: € 12,60 (requisitado da biblioteca municipal)
ISBN:  978-9-73-11064

Avaliação: * (a evitar)

 
Numa escura, húmida, noite de nevoeiro, um pequeno grupo de intelectuais reúne-se num clube masculino exclusivo. Chegam envoltos nos seus abafos dispendiosos, com o pretensiosismo de quem sabe mais que a maioria.

Deste grupo,
que se junta periodicamente para discutir acontecimentos paranormais, fazem parte o famoso ilusionista Houdini e o afamado Sir Arthur Conan Doyle (criador do celebérrimo Sherlock Holmes). 

Outros Mundos relata uma dessas reuniões. Num serão frente à lareira, com uma bebida aconchegante no colo, os intelectuais analisam dois episódios distintos: ‘A Bruxa de Bell’ e ‘O Caso Phelps’. O primeiro é a história de um poltergeist que assombra uma família do sudeste americano; o segundo envolve uma família católica a braços com um espírito violento. Depois dos relatos, os membros do clube (todos eles interessados e/ou estudiosos do sobrenatural) discutem e determinam se as assombrações são verdadeiras ou falsas.

Quando li a sinopse, achei que o livro tinha os predicados ideais para uma leitura nocturna inquietante, mas cedo a prometida história de fantasmas se transformou num desencantado virar de páginas.

A forma como se desenrola a acção é extremamente desinspirada. Enquanto lia as análises dos fenómenos feitas pelos membros do "selecto" clube, mais anedótica a história se tornava. Sei que Conan Doyle foi adepto do espiritismo e frequentador assíduo de sessões espíritas - chegou a ser Presidente da Aliança Espírita de Londres -, por isso quando li as passagens em que intervém, espantou-me a falta de lógica. O livro é uma má piada do princípio ao fim, com diálogos secos, chatos, pouco credíveis. Admirou-me ainda que
Barbara Michaels escrevesse algo assim; é uma autora consagrada e muito experiente, que assina outro género de livros como Barbara Metz e Elizabeth Peters (não ficção e históricos, respectivamente), todos com imenso sucesso.

O saldo total é um enorme bocejo. Obriguei-me a ler o livro até ao final, talvez à espera de uma reviravolta que não chegou a acontecer. Este livro, bom? Talvez noutro mundo.

21 de novembro de 2010

Jack, o Estripador - retrato de um assassino

Autor:  Patricia Cornwell
Género: Não Ficção
Idioma: Português
Editora: Editorial Presença
Páginas: 356
Preço: € 17,65
ISBN:  978-9-72-233121-0

Avaliação: *** (mediano)

Jack, o Estripador é uma figura incontornável, alvo de inúmeros livros, filmes e videojogos; grande parte do fascínio que exerce prende-se largamente com o mistério que envolve a sua verdadeira identidade. 


Os suspeitos daquele que pode ter sido o assassino de Whitechapel são mais do que muitos, reduzidos a uma lista oficial de 30 indivíduos (lista detalhada aqui), entre os quais se contam o Príncipe Alberto e o escritor Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas. Há inúmeras teorias, algumas com nomes sonantes como os referidos e uns poucos com pessoas anónimas que, ao terem o seu passado esmiuçado, encaixam-se numa ou outra circunstância oportuna para serem incriminados, ficando assim na memória colectiva. Escritores, detectives, médicos, cineastas, muitos foram aqueles que apresentaram a sua versão dos crimes perpetrados na era vitoriana; a escritora Patricia Cornwell decide revelar-nos a sua teoria neste livro.

Cornwell é uma consagrada autora de policiais, melhor conhecida pela sua personagem Kay Scarpetta, uma investigadora forense que deslinda crimes através de autópsias e análises clínicas meticulosas com recurso à tecnologia - uma espécie de Dr.ª Temperance Brennan, da série televisiva Ossos.

Não sendo de ficção, este livro encontra-se entre os títulos policiais, junto aos outros livros da escritora; a sinopse prometia o nome verdadeiro de Jack, com todas as provas reunidas pela autora exploradas minuciosamente. Como o tema me interessa e já tinha lido (e até jogado em PC) títulos do género, não hesitei em ler.


A primeira metade do livro é quase impossível de pousar, com um ritmo ficcional viciante. Cornwell crê piamente que Jack, O Estripador foi o respeitado pintor britânico Walter Richard Sickert e recorre a correspondência diversa, obras artísticas e testemunhos de familiares e amigos para construir e fundamentar a sua teoria.

Escrito 114 anos depois dos acontecimentos que mergulharam Whitechapel num clima de terror, Jack, O Estripador – retrato de um assassino tem como base um conjunto de provas circunstanciais reunidas pela autora que, juntas e enquadradas, não provam nada.
Creio que Cornwell teve uma atitude ousada (onde por vezes se descortina alguma arrogância e prepotência) ao apontar o pintor como o sangrento Jack, em grande parte porque não é capaz de apresentar uma prova irrefutável do que afirma (o que também será quase impossível). O seu retrato psicológico d'O Estripador recorre às técnicas actuais e baseia-se numa visão apurada do modo de vida, de actuar e pensar da Londres do final do século 19.

Cornwell mistura opiniões pessoais com apreciações pouco isentas. O livro é uma compilação de conjecturas de acções que Sickert poderia ter praticado, da forma como encarava as mulheres e até da sua eventual impotência. Uma das alegações é a de que Walter R. Sickert - que privou com Óscar Wilde, que foi pupilo de Whistler e que é considerado um dos mestres pintores do século 19 - tem quadros repletos de violência e muitos deles representam cenas ligadas aos crimes; tal tem uma explicação plausível: o artista vivia obcecado com os crimes d'O Estripador e transmitiu esse fascínio para a sua pintura. Não é inédito no mundo das artes.

Fiz alguma pesquisa  na net e está registado de forma rigorosa que Sickert tinha comportamentos e um temperamento que denotavam uma tendência para a sociopatia, mas daí a ser dado como certo de que foi o impiedoso e calculista Jack
parece-me ir uma grande diferença. Por mais que Cornwell se agarre a uma análise de ADN de Sickert que, na melhor das hipóteses, é «um indicador minimamente razoável» de que ele e Jack poderiam ser a mesma pessoa, afirmá-lo peremptoriamente é calunioso.

De positivo temos o facto do livro estar bem escrito e ser notório o extenso trabalho de pesquisa de Cornwell, embora isso não torne o seu conteúdo menos especulativo. As descrições extremamente realistas das ruas escuras de Whitechapel, da vida madrasta das prostitutas e indigentes do East End e da falta de condições com que a polícia londrina patrulhava as ruas são arrepiantes; a facilidade com que alguém poderia cometer um crime e nunca ser apanhado – sem impressões digitais, sem sequências de ADN, sem análises de fibras e cabelos, todas usadas no deslindar dos crimes actuais, basta atentar no CSI - é angustiante. Seria fácil para um psicopata inteligente e meticuloso como se revelou Jack, O Estripador ter feito o que fez e nunca ser descoberto.

Quem foi esta figura? Homem, mulher? Quais os seus motivos? Estas e outras perguntas continuam por esclarecer, mas, justiça seja feita, de todos os livros que já li sobre o assunto, este é um dos melhores, juntamente com O Diário de Jack, O Estripador, de Shirley Harrison. No entanto, apenas e só do ponto de vista ficcional, já que rotulá-lo de não ficção é enganar o leitor.

É um livro que interessará aos fãs de policiais e mistérios. Quanto a Cornwell, creio que deve ter mais cautela a aventurar-se fora do registo que a notabilizou.

12 de novembro de 2010

Meu amo e senhor

Autor: Tehmina Durrani
Género: Biografia, Memórias
Idioma: Português
Editora: Edições Asa
Páginas: 320
Preço: € 15
ISBN: 978-9-72-411611-2

Avaliação: ** (fraco) 

Meu Amo e Senhor é o testemunho de Tehmina Durrani sobre parte da sua vida, focando com alguma insistência a sua relação (e casamento) com Mustafa Khar, senhor feudal e político proeminente no Paquistão, que a maltratou de forma continuada.

O livro não se lê muito bem, não só pelo conteúdo pesado – a autora não se coíbe de ser gráfica nas descrições de alguns abusos de que foi vítima por parte do companheiro – mas também pela forma pouco fluída como está escrito.

Tehmina realça o facto de que o livro é um meio de desmascarar a hipocrisia e decadência da elite que governa o Paquistão (o livro é de 1991) e de expôr a natureza violenta do seu marido.


Somos então confrontados com páginas em que a autora recorda episódios espaçados no tempo, num ritmo confuso, ao mesmo tempo que descreve a convivência com o marido; aqui os adjectivos são muito pouco lisonjeiros, com Tehmina a denunciar o adultério do marido com a irmã  e os maus-tratos constantes às mãos do "Leão do Punjabe". E seguem-se mais agressões, maus-tratos, violência, opressão.

Paralelamente, o leitor comum debate-se, enquanto a sua mente ocidental tenta perceber a razão pela qual a autora perdoa e volta sempre para os braços de um marido que não hesita em trancar-se num quarto e desancá-la com o que tiver à mão... às vezes somente porque sim. E desfia o rosário, pondo-nos ao corrente dos seus planos de reconciliação com Mustafa, pois manter as aparências é crucial...

É reconhecível na autora um elitismo tacanho e uma vontade férrea para defender a imagem de membro da classe alta, que nos faz desligar como leitores. A páginas tantas, deixamos de nos importar, porque torna-se irritante e uma perda de tempo. A uma agressão, seguem-se as pazes, depois mais uns tabefes... e o ciclo não varia.


Não posso recomendar este livro nem elogiá-lo, e a sua finalidade permanece indefinida para mim. O que me chocou mais (e já li uma boa dúzia deste género de livros) é que a mensagem resumida salda-se num retrocesso na liberdade feminina, enbandeirado por um fraco modelo de mãe e mulher. Como lição de vida, sabe a muito pouco.


Não recomendo.

3 de novembro de 2010

Drácula, o regresso

Autor: Freda Warrington
Género: Fantástico, Terror
Idioma: Português
Editora: Edições Século XXI
Páginas: 243
Preço: € 14,37
ISBN: 978-97-2829319-2
Avaliação: ***** (muito bom) 

Drácula – O Regresso, no original Dracula the Undead, foi editado exactamente 100 anos após a publicação do clássico mundialmente conhecido de Bram Stoker; Drácula foi o livro que revolucionou a forma como vemos os vampiros e o pioneiro de um género que moveria milhões de autores e leitores a nível mundial.
É inegável e bastante óbvio o fascínio que estas criaturas da noite inspiram no homem médio; prova disso é a consagração de escritores como Anne Rice e actores como Bela Lugosi e Christopher Lee, que deram ao mundo personagens ricas e algo estereotipadas do vampiro, um ser sedutor, bem falante e imortal, que eterniza a beleza e o hedonismo.
«Nunca saberá o que é amar a vida como eu amo – amá-la tão apaixonadamente que estamos preparados até para ludibriar a morte. Amá-la é tão intenso, na verdade, que não podemos morrer – ou permanecermos mortos!» (Conde Drácula)
Depois da obra de Bram Stoker, muitos (milhares) foram os livros que exploram (e continuam a fazê-lo) o filão de ouro que é o vampirismo (ocorre-me o fenómeno mais recente, Crepúsculo). Li muitos deles e exceptuando um punhado de autores, o saldo não é nada bom. Tornou-se um lugar comum retratar os vampiros como criaturas sensuais e sequiosas, sem qualquer resquício de humanidade (passe a ilusória contradição) ou valores, movidos apenas pelo desejo de beber sangue.

E é exactamente nesse ponto que Freda Warrington, a autora de Drácula – O Regresso, evita cair – nem poderia, visto que escrever um livro e apelidá-lo da «sequela da obra de Bram Stoker» é uma responsabilidade titânica que só poderia redundar num sucesso absoluto ou num desolador e mencionadíssimo fiasco.

A própria escritora referiu que foi um desafio que aceitou com entusiasmo mas algum receio. No worries, pois Freda ganhou a batalha. Além de ter alcançado o objectivo (escreveu uma história fiel ao espírito da obra de Stoker), produziu um livro soberbo e ainda foi reconhecida: ganhou o prémio 'Children of the Night 1997' para melhor romance gótico, atribuído pela prestigiada Dracula Society. Mais, ganhou em mim uma fã fidelíssima (embora isso já não a deva entusiasmar tanto). Mas deixemo-nos de entretantos e passemos ao livro em si.

Passaram-se 7 anos desde que uma estaca perfurou o coração do infame e odiado Conde Drácula, 7 anos que não apagaram da memória dos sobreviventes a imagem do vampiro e a magnitude do seu terrífico poder.

Jonathan e Mina Harker têm agora uma criança, Quincey, e vivem em paz, tanto quanto possível. Como catarse, encetam, juntamente com os companheiros de luta (Van Helsing, entre outros), uma viagem à Transilvânia. Não encontram qualquer vestígio da presença de Drácula, embora o seu nome ainda resida no consciente colectivo e seja figura de proa no folclore da região, pelo que a jornada se revela um sucesso. Tudo parece bem. Porém, algures nos confins da terra, a força do espírito do Conde aguarda uma oportunidade de voltar a ser carne e sangue. E esse ensejo acaba por chegar pela delicada mão de um alguém insuspeito.

Drácula volta a erguer-se e a andar entre os incautos vivos. E a sua obsessão amorosa por Mina Harker prossegue como se nada tivesse mudado, assim como permanece intocável o seu ódio por aqueles que o destruíram e que tudo farão para o devolver ao Inferno. Drácula – O Regresso é uma obra extremamente bem escrita, que respeita escrupulosamente toda a atmosfera presente no livro de Stoker e que retoma as personagens sem lhes descurar a essência.

Os diálogos são ricos e todo o fio da acção é credível e inteligente. Há a introdução de novas personagens que surgem perfeitamente enquadradas e adequadas ao enredo. Continua a sentir-se a aura de sensualidade tão característica da literatura vampiresca e a carnalidade é sempre de bom gosto e nunca gratuita.

«Não posso iludir-me! Eu caí porque o horror docemente doloroso não era nada comparado com a suprema agonia do prazer.» (Mina Harker)

É um livro belíssimo que não posso deixar de recomendar. Claro que sou suspeita: um dos meus filmes favoritos é a adaptação do clássico por Francis Ford Coppola e o romance de Bram Stoker é uma obra-prima a que não sou indiferente, mas creio que mesmo para o leitor comum, este será um livro a registar e a ter em atenção. Pessoalmente, senti-me arrebatada. Quem nunca se questionou sobre a imortalidade, seja do amor, da alma ou da vida?

«Toda a minha vontade de viver estava contida em ti, no teu sangue, carne e alma. E tu rejeitaste-me. És uma amante mais cruel do que eu alguma vez fui! Dado que um de nós deve morrer, que a sobrevivente sejas tu. Por muito que eu tenha amado a minha existência, amo ainda mais a tua.» (Conde Drácula)

24 de outubro de 2010

Comer Orar Amar

Autor: Elizabeth Gilbert
Género: Romance
Idioma: Português
Editora: 11 x 17
Páginas: 512
Preço: € 10
ISBN: 978-97-2251893-2
Avaliação: *** (mediano) 

Aos 30 e poucos anos anos, Liz Gilbert (a autora do livro) tem uma vida cheia: casada e a tentar ter um filho, viaja pelo mundo, escreve os seus artigos de viagem, tem amigos leais, o dinheiro não é problema... Porém, dá por si, uma madrugada, prostrada no chão da casa de banho, a soluçar e a suplicar por ajuda divina. A razão? Esta não é a vida que quer. Não quer ter um filho, não quer estar casada, não quer continuar no lar que ela e o marido construíram.

Segue-se um penoso divórcio, um romance pós-divórcio pouco saudável e uma quase-depressão que a leva por caminhos menos coloridos. Aos 34, sentindo-se velha e derrotada e sem gosto pela vida (ela, Liz, que sempre teve tanto gosto pela vida!), chega à conclusão que a sua única hipótese (e forma de renascer) é tirar 1 ano para si, longe do que conhece; decide dividir o seu itinerário centrado no I (eu em inglês): 4 meses em Itália para aprender a língua e entregar-se aos prazeres da mesa, 4 meses na Índia num ashram para se entregar de corpo e alma à devoção iogue, 4 meses na Indonésia onde pretende praticar o equilíbrio que as duas viagens anteriores (espera) lhe trouxerem. Um aparte: esta viagem tinha-lhe sido vaticinada por um curandeiro balinês há um ou dois anos atrás. Siga.


Uma coisa positiva sobre o livro: é bastante sensorial. A forma como a autora descreve tudo o que a rodeia e o entrelaça com humor e ditos espirituosos - e até algumas informações de algibeira -, tornam o livro fresco e fácil de ler, mas... não mais credível.


Claro está que a personalidade de Gilbert poderá não ser para todos (toda a gente parece adorá-la assim que a conhece, não há grande profundidade no seu relato, algumas questões ficam no ar, como a razão do seu casamento ser horrível), e algumas vezes dei por mim a pensar se algumas situações aconteceram mesmo como a autora conta (como os problemas de sono do sobrinho - a muitos milhões de kms - desaparecerem por ela lhe dedicar uma oração todas as manhãs quando esteve na Índia), mas prossegui a leitura sem julgamentos.

Porém, não posso deixar de notar que apesar da autora focar e discorrer amiúde sobre os seus relacionamentos falhados, a sua forma de ser dependente e obcecada, não se poupando sobre a sua culpa em diversas situações, o relato da sua relação espiritual com Deus - que despoleta a ruptura do seu casamento no início do livro - e sobretudo a evolução da mesma é bastante parca, arrematada em meia dúzia de parágrafos. Fiquei com a sensação que a ideia era chegar a Bali (Indonésia) o mais rápido possível, onde novas aventuras (e um novo amor) a esperavam. 

O livro lê-se bem e é leve, sem dúvida. Aliás, parece-me cor-de-rosa demais para alguém que esteve à beira do abismo, completamente perdida, e confia decisões importantes a profecias e ditos de curandeiros, deixando uma vida (ainda que divorciada e sem filhos) estruturada para trás. 

O que me incomoda é que acredito que a autora omitiu várias coisas desta sua jornada espiritual de uma mulher «em busca de tudo»; falta-lhe realismo e autenticidade, porque a vida não é só coisas lindas e maravilhosas. Mais, que mulher se pode dar ao luxo de, em plena crise existencial, pegar numa mala e ir percorrer o mundo? Aqui com uma nuance: não sem antes convencer o editor que o livro que vai resultar dessa viagem vai ser um best-seller e compensar a avantajado adiantamento que ele lhe deu, financiando essa mesma viagem.

É fantástico, a acreditar em vários artigos e entrevistas que li, que tantas pessoas apregoem aos sete ventos que este livro é a última coca-cola no deserto, que lhes abriu os olhos, que tiveram a epifania enquanto e quando o leram. Bom para elas, parabéns. Para mim foi apenas mais uma leitura, razoável q.b., sendo que a nível literário, já li muito melhor e... por aqui me fico.

14 de outubro de 2010

As mulheres da casa do tigre

Autor: Marion Zimmer Bradley, Andre Norton, Mercedes Lackley
Género: Fantasia
Idioma: Português
Editora: DIFEL
Páginas: 546
Preço: € 18
ISBN: 972-29-0343-8
Avaliação: *** (mediano) 

Sou uma fã de Marion Zimmer Bradley (MZB) desde que li As Brumas de Avalon, já lá vão muitos anos. As Brumas são o auge da carreira da autora e fez-me ler todos os outros livros dela, uns melhores e outros menos bons.

Neste livro, o cenário é Merina, uma cidade próspera onde reinam as mulheres da Casa do Tigre, mulheres de linhagem antiga que mantêm o equilíbrio na cidade, conciliando os interesses económicos e mantendo vivo o culto da Deusa. Porém, tudo muda quando o imperador Balthasar e o mago negro Apolon se aproximam com o seu poderoso exército e a cidade não tem qualquer hipótese  de lhes resisitir. 

As Mulheres da Casa do Tigre planeiam a defesa da cidade, cientes que apenas a sua coragem se interpõe no caminho do imperador e do seu triunfo: a rainha-mãe, Adele, fará uso dos poderes espirituais e mágicos de que dispõe; Lydana, a rainha reinante, organizará a resistência armada; e a princesa herdeira, Shelyra, será os «olhos e os ouvidos» da resistência fazendo valer uma antiga aliança com os ciganos.

Pessoalmente, tinha expectativas altas para este livro, ainda mais porque pensei que se MZB escreve tão bem a solo, o que resultaria na fusão com mais duas escritoras consagradas na literatura de fantasia, cada uma a contribuir com o seu talento? Nada de muito bom, infelizmente. Em grande parte, porque em muitas situações ao longo da acção, os três estilos de escrita não se harmonizam. Há alturas em que se nota perfeitamente um desfasamento da acção, como se estivéssemos perante personagens que não têm grande coisa a ver umas com as outras. As alternâncias de estilo também não resultaram muito bem, o que se torna frustrante porque a história tinha potencial (a sinopse promete mais do que cumpre).

Quanto às mulheres fortes a que estamos habituadas nos livros das autoras, aqui não vivem. As personagens não são mal delineadas nem exploradas, mas estão longe de ser apaixonantes e complexas como, por exemplo, uma Morgana (As Brumas de Avalon) ou uma Cassandra (O Presságio de Fogo).

Se fizerem questão de o ler, recomendo que o requisitem na biblioteca municipal ou peçam emprestado, acho que é a opção mais acertada. Leiam e formem a vossa opinião. Mas não posso aconselhar que se gaste quase 20 euros neste livro (nessa já caí eu!).

10 de outubro de 2010

Intensidade

Autor: Dean Koontz
Género: Thriller
Idioma: Português
Editora: Editorial Notícias
Páginas: 354
Preço: € 10 (alfarrabista)
ISBN: 978-9-72-460861-7

Avaliação: **** (bom) 

Dean Koontz é considerado um dos seguidores da escola de Stephen King, um dos escritores de terror/thriller psicológico mais promissores. E é-o, na minha opinião.  Autor de uma obra numerosa, Intensidade é um dos seus poucos títulos traduzidos em Portugal.

A nossa protagonista é a finalista de Psicologia Chyna Sheppard, que, ao passar um fim-de-semana prolongado com uma amiga na sua casa de campo, assiste ao massacre da família desta por um perigoso e inteligente psicopata. Num acesso de coragem (ou insanidade), decide segui-lo para poder auxiliar na sua detenção, no que se revela uma viagem infernal, à medida que vai conhecendo as motivações e a maldade de Edgler Vess.

Até à primeira metade do livro, o suspense abunda - e aqui aviso que o livro pode causar insónias aos mais impressionáveis, com a descrição dos actos cruéis e impunes praticados por Vess. A tensão é mantida ao longo de toda a narrativa e tem momentos de crescendo à medida que nos aproximamos do confronto final de Chyna com o assustador e extremamente lúcido Vess («um homem tão bonito e sem qualquer clarão de loucura nos olhos, como é possível um ser humano conseguir esconder tão bem a podridão que o corrói por dentro?»), exorcizando ao mesmo tempo os seus próprios fantasmas do passado, que envolvem abuso e maus tratos.

O livro é intenso, com um ritmo constante do início ao fim. Deixa o leitor
em ponto de rebuçado, completamente vidrado durante horas a fio. Obrigatório para quem gosta do género.

17 de setembro de 2010

Trilogia: Filha do sangue / Herdeira das sombras / Rainha das trevas

Autor: Anne Bishop
Género: Fantasia
Idioma: Português
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 1276
Preço: € 44,42 (pack)
ISBN: 978-9-78-883977-2 / 978-9-72-883989-5 / 978-9-89637172-2

Avaliação: ***** (muito bom) 

As Jóias Negras é uma trilogia fantástica que tem como cenário um mundo governado por mulheres e pela magia, onde os homens têm um papel secundário e servem como súbditos, sendo criados, consortes, criados e até escravos sexuais.

Os detentores da magia - os Sangue - convivem com os plebeus - pessoas ditas normais, sem poderes mágicos - numa sociedade extremamente hierarquizada e de base matriarcal, assente no poder e no sistema de castas que rege os Sangue. É nestes que reside todo o enfoque da estória, e são os Sangue que, apesar de uma minoria em comparação com os plebeus, governam e protegem - na pessoa da Rainha - o território e seus habitantes. Cada Rainha tem uma corte para as auxiliar e sobre elas recai o dever de protecção, de administrar justiça e de governar o território. Esta divisão gera ódio, abuso de poder e tirania, com algumas Rainhas a exercerem as suas funções de modo menos próprio.

A acção começa com um prólogo, datado de 700 anos atrás no tempo, onde uma poderosa feiticeira prevê a vinda da rainha mais poderosa da história dos Sangue, «o sonho tornado realidade», capaz de unir todos os territórios e acabar com a a corrupção e decadência dos Sangue.

A estória prossegue então com a chegada de Jaenelle Angelline, profetizada como a Rainha prometida. Mas Jaenelle é uma criança, jovem e inocente, sem consciência do que a espera. Quem a controlar e obtiver o seu favor, controlará o mundo, por isso várias facções unem-se e defrontam-se para serem as favorecidas.

Porém, quando a educação de Jaenelle é entregue ao Senhor do Inferno, Saetan, é encetado um enorme jogo de diplomacia e esquemas atrozes para garantir o poder.   

Toda a trilogia é muito interessante e lê-se de uma assentada; há personagens que não mencionei e que são cruciais na acção, como o magnético Daemon Sadi (uma personagem que qualquer elemento do sexo feminino adorará, é mais que garantido), o impetuoso Lucivar Yaslana, a maquiavélica Dorothea ou a letal Surreal. Ao longo dos 3 livros, vamos assistindo ao crescimento e desenvolvimento de Jaenelle Angelline, à forma como é moldada e escapa às manietações dos seus adversários, sempre auxiliada pelos 3 pilares da sua vida: Saetan, Daemon e Lucivar.

Há outras estórias que são contadas e que permite ao leitor perceber todo o universo onde a acção se desenrola. Há vários pormenores deliciosos no que concerne a raças, características e modos de vida dos Sangue, com a magia sempre em destaque. As personagens estão muito bem delineadas e tornam-se familiares à medida que nos vamos embrenhando: fazem-nos vibrar, torcer por eles, preocuparmo-nos com o que virá.

Os livros são impossíveis de largar e é uma pena quando chegamos ao fim. Acho que essa é uma qualidade rara e é dos melhores elogios que um autor pode receber sobre a sua obra.

NOTA: Existe a edição de bolso desta trilogia, com capas idênticas à edição em formato normal, a um preço mais catita (cerca de 11€ cada).

2 de setembro de 2010

O intruso

Autor: H.P. Lovecraft
Género: Terror, Fantástico
Idioma: Português
Editora: Fio da Navalha
Páginas: 160
Preço: € 12,98
ISBN: 972-8839-01-4

Avaliação: ***** (muito bom)

Howard Phillips Lovecraft disse: «A mais antiga e forte emoção da humanidade é o medo. E o mais antigo e forte medo é o medo do desconhecido.» Sabia do que falava e melhor o fez.

Escritor altamente influente, foi o pioneiro do horror sobrenatural na literatura, inspirando autores como Stephen King, Alan Moore, Mike Mignola e Richard Matheson.

As suas histórias, fruto de um homem de saúde débil e vítima de constantes pesadelos, são ricas em simbolismo e seres malignos.

Neste livro, temos uma excelente selecção de algumas obras de Lovecraft:

- O modelo de Pickman
- Os ratos nas paredes
- Factos respeitantes ao defunto Arthur Jermyn e sua família
- A sombra sobre Innsmouth
- O intruso
- Dagon
- A cor que caiu do céu

que são exemplificativos do imenso talento de Lovecraft em criar uma atmosfera assustadora e assombrosa, onde as histórias, não raras vezes, são contadas na 1.ª pessoa, e falam de mitos, monstros e seres poderosos que habitam nos cantos mais recônditos do mundo.

Li O Intruso nestas férias de Verão, resguardada do calor abrasador, mas mesmo assim fui envolvida pelo bestiário lovecraftiano, habitado por criaturas que querem dominar, devorar, destruir o universo. Recomendo a leitura deste livro e de toda a obra do autor, que continua a inspirar artistas de todo o mundo, na música, na literatura, nos videojogos, no cinema e nas artes plásticas.

H.P. Lovecraft morreu aos 47 anos mas garantiu a imortalidade através dos seus escritos e reclamou, a título póstumo e merecidamente, o epíteto de 'Mestre do Horror'.

23 de agosto de 2010

The owl killers

Autor: Karen Maitland
Género: Ficção Histórica Medieval
Idioma: Inglês
Editora: Penguin Books
Páginas: 568
Preço: € 7,61
ISBN: 978-0-141-03189-7

Avaliação: **** (bom)

Estamos em Inglaterra, no ano da graça do Senhor 1321, na época denominada de Idade das Trevas.

É um período marcado por um desenvolvimento quase nulo, onde reina a miséria, os jugos clerical e feudal, o totalitarismo e a superstição. A ciência é vista como um absurdo, não havendo espaço para o pensamento intelectual e filosófico; imperam, ao invés, a ignorância, o preconceito e o medo do desconhecido e do que é diferente.

É neste cenário que a autora coloca as personagens de The Owl Killers, mais concretamente na aldeia de Ulewic, o que em inglês medieval significa "o lugar da coruja". Em Ulewic, duas forças debatem-se pelo controlo da populaça: a Igreja cristã e os pagões Owl Masters, homens da terra que se vestem com túnicas e máscaras de coruja e coagem os habitantes a manterem os hábitos antigos de adoração aos deuses.

O povo trabalha a terra para o nobre que detém a posse do latifúndio, paga os seus inúmeros impostos e dízimos, e tenta sustentar-se e à sua família. Não há sistema de saúde, nem subsídios, nem ajudas estatais, a vida é dura, cruel e não se compadece daqueles que têm recaídas ou momentos de azar. Estamos em 1321 e cada um tem lutar arduamente pela sua sobrevivência.

Quando Ulewic e os arredores são atingidos pela peste, a vida fica (ainda) mais difícil. O gado adoece e morre, algumas crianças não resistem à fome e infecções, o padre do lugar não sabe como amparar os paroquianos. Com os estômagos vazios, desmoralizados e cada vez mais indigentes, os populares procuram a origem da sua má sorte e viram-se contra um grupo de beguinas que se instalou recentemente em Ulewic.

As beguinas vivem num mosteiro, um pouco afastadas da aldeia. Dedicam-se à caridade, ao cuidado dos pobres e doentes, mas sem vínculo a votos de clausura como as freiras. Cada beguina tem uma função no beguinário e trabalha para o bem colectivo. As beguinas são autónomas e providenciam a sua subsistência: trabalham a terra (cereais, algodão), vendem o que produzem, conhecem as ervas e os unguentos. Durante anos, foram toleradas e deixadas em paz pela Igreja, mas em 1311, são consideradas hereges e ostracizadas daí em diante.   

Em Ulewic, não encontram inicialmente um ambiente hostil na medida em que ajudam a população com comida e dinheiro, mas rapidamente passam a bode expiatório, acusadas de atraírem a ira divina pelo seu modo de vida independente.

A história é narrada por várias personagens: Servant Martha, a líder das beguinas; o padre da aldeia, Ulfrid; Osmanna, a filha do senhor feudal que é acolhida pelas beguinas quando é expulsa pelo pai; Beatrice, uma beguina abrasiva e revoltada com a sua infertilidade; e ainda uma criança da aldeia, Pisspuddle.

Toda a acção é pontuada por uma envolvente e intrigante mistura de elementos cristãos e pagãos, com muita bruxaria e superstição à mistura. As personagens têm uma voz diferente entre si e são todas muito interessantes, o que facilita a leitura do livro e a compreensão do que se passa, com as diferentes perspectivas a complementarem a história. O livro tem tantos pormenores e sub-enredos que o tornam delicioso que é impossível não o apreciar.

Tudo somado, The Owl Killers é uma leitura viciante e impossível de largar, que recomendo vivamente.

9 de julho de 2010

A tapeçaria de fionavar

Autor: Guy Gavriel Kay
Género: Fantasia
Idioma: Português
Editora: Livros do Brasil
Páginas: 1076
Preço: € 53 (trilogia)
ISBN:  978-9-72-382602-9 / 978-9-72-382649-4 / 978-9-72-382664-7

Avaliação:  ***** (muito bom)

A Tapeçaria de Fionavar é uma trilogia fantástica (em género e qualidade) da autoria de Guy Gavriel Kay (G.G. Kay), composta por três títulos:

1 - A Árvore do Verão
2 - O Fogo Errante
3 - A Senda Sombria
 
Assumidamente high fantasy, na melhor tradição tolkieana, foi editada em Portugal pela Livros do Brasil, na colecção Argonauta Gigante, com os números 16, 17 e 18. A Tapeçaria de Fionavar tem a sua história localizada em dois mundos: o nosso mundo (anos 80, quando foram escritos os livros) e Fionavar, «o primeiro de todos os mundos».

A premissa é simples: cinco estudantes universitários são transportados para o primeiro dos mundos, Fionavar, por e a convite de um mago de lá oriundo, Loren Silvercloak, sob o pretexto de participarem na celebração do 50.º aniversário do reinado do Alto Rei.

Porém, quando Rakoth Maugrim, o Desafiador, consegue libertar-se da sua prisão encantada, apercebem-se que têm um papel crucial na luta do Bem contra o Mal. À sua maneira, e à medida da sua intervenção em Fionavar, cada um descobre um destino naquele mundo, em locais diferentes, seja cavalgando ao lado de uma tribo nómada de caçadores (os Dalrei), em busca de aventuras com o princípe Diarmuid, ou na corte do velho rei Ailell.

Prefiro não revelar muito do enredo, pois os livros são muito mais deliciosos de ler sem sabermos os imbróglios onde os protagonistas se vão meter; mas posso recomendar sem reservas e afirmar, com segurança, que o leitor não se irá arrepender.

Confesso que quando comecei a ler o livro, fiquei renitente com o início: ser transportado via magia para outro mundo pareceu-me um pouco forçado, ainda por cima logo na abertura do livro, sem uma introdução no mundo fantástico. Faltou a envolvência inicial, costumeira neste tipo de narrativa. Mas passando essas páginas iniciais, e à medida que a acção começou a evoluir e a história foi ficando consistente, esqueci isso.

São livros bem escritos em prosa fluida, muito bem "entrelaçados" uns nos outros (é visível que G. G. Kay dá atenção aos pormenores), onde os protagonistas - Paul, Kevin, Jennifer, Kim e Dave -, que têm igual valor e importância, contam a história a cinco vozes, mesmo quando algumas vozes intervêem mais do que outras.

Outra coisa que gostei nos livros foi o ritmo rápido; há muito sumo e poucos momentos mortos, não há capítulos "para encher". Achei isso muito positivo, não só porque facilitou a leitura mas também porque apurou o interesse.

A Tapeçaria de Fionavar é uma trilogia populada de muitos valores e emoções: amor, amizade, sacrifício, honra, altruísmo, crescimento pessoal e colectivo. Não há lugares-comuns, as personagens são ricas e empáticas e as suas acções são compreensíveis.

É um livro de fantasia para adultos, cheio de situações que inspiram, alegram, entristecem ou revoltam. G.G. Kay é um escritor muito talentoso, nunca perdendo o fio à meada.

A trilogia, que granjeou alguns prémios, tem um lugar exclusivo no site autorizado do autor.

4 de julho de 2010

Dark visions

 Autores:  Stephen King, Dan Simmons, George R. R. Martin
Género: Terror, Fantástico
Idioma: Inglês
Editora: Orion
Páginas: 384
Preço: € 8,35
ISBN:  978-0-57-540290-4
Avaliação: *** (mediano)

Dark Visions é uma compilação de sete contos: três de Stephen King, outros três de Dan Simmons, e o último de George R.R. Martin.

De Stephen King temos 'Reploids' (que trata de realidades alternativas), 'Sneakers' (sobre um local incomum 
assombrado - uma cabina sanitária) e 'Dedication' (uma grávida que ingere o sémen de um escritor a fim de captar algum do seu talento para o nascisturo).

'Metastasis' (sobre um homem que consegue ver os parasitas que infectam as pessoas com cancro), 'Vanni Fucci is Alive and Well and Living in Hell' (uma transmissão televisiva evangélica recebe uma inesperada visita infernal)  e 'Iverson's Pits' (um veterano da guerra civil americana não esquece os horrores passados) são os contos de Dan Simmons.

O ultimo conto é também o mais longo; 'The Skin Trade' do George R. R. Martin, uma werewolf novella

Tenho livros dos três autores e aprecio-os a todos, mas comprei este livro por causa de G.R.R. Martin. Como fã declarada da saga The Song of Ice & Fire, editada em Portugal pela Saída de Emergência, estou a tentar ler tudo dele e ainda não me desiludi.

Ao lado de autores com créditos não menos firmados, Martin não deixa os seus por mãos alheias, conseguindo, na minha opinião, o melhor conto do livro (vencedor do World Fantasy Award em 1989 por Best Novella).

As estórias de Dan Simmons sucedem-se da melhor para a pior, sendo 'Iverson’s Pits' tão secante quanto 'Metastasis' é original (e é-o, realmente).

Stephen King é o que fica mais aquém do trio de autores, embora 'Dedication' seja uma leitura cativante pela premissa invulgar (e até repugnante); as suas contribuições neste volume podem ser encontradas noutras colectâneas.

Este é um livro que vale a pena comprar por 'The Skin Trade', que não foi publicada em mais nenhum lado, e por 'Metastasis'. Os outros contos lêem-se bem mas não são marcantes.

No geral, é 50-50. Metade bom e metade sofrível.

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